Thursday, July 12, 2007

Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles que perdemos estão cativas em algum ser inferior, num animal, num vegetal, numa coisa inanimada, efectivamente perdidas para nós até ao dia, que para muitos não chega nunca, em que acontece passarmos junto da árvore, ou entrar na posse do objecto que é sua prisão. Então elas estremecem, chamam por nós e, mal as reconhecemos, quebra-se o encanto. Libertadas para nós, venceram a morte e tornam a viver connosco.
O mesmo acontece com o nosso passado. É trabalho baldado procurarmos evocá-lo, todos os esforços da nossa inteligência são inúteis. Ele está escondido, fora do seu domínio e do seu alcance, em algum objecto material (na sensação que esse objecto material nos daria) de que não suspeitamos. Depende do acaso encontrarmos esse objecto antes de morrermos, ou não o encontrarmos.

Proust, Em Busca do Tempo Perdido

4 comments:

etcetc... said...

tenho dias coisas a dizer:
1º: ca pra mim esse senhor foi tirar essa ideia das arvoras à floribela
2º: depois de passar 2 semanas a estudar intensivamente (ah ah) farmacologia, nao acho mta piada a quem me vem dizer que o meu trabalho e a minha inteligencia sao inuteis, ao fim de tanto esforço. ora se tivesses escrito isso uns dias mais cedo, eu n teria estudado nada, e estava ja ha mt tempo a aproveitar umas feriazinhas

c. said...

tenho duas respostas a dar:
1º: este senhor é o Proust que viveu no século passado, muito antes de atrocidades tais como a Florabella
2ª: burra, o teu trabalho e inteligência sao inúteis PARA EVOCAR O PASSADO. (se ao menos prestasses atenção, ao invés de mandares logo vir com a coisa)

c. said...

(um pedido de desculpas à etc, por a ter chamado burra, logo ela que é a croma-rainha do laboratório e dos fungos. rebaixo-me diante a minha arrogância pretenciosa. vénias leonor, vénias)

etcetc... said...

vaca